Minha

 MENTE

NOVA

Reprogramação mental ao seu alcance

Prof. Dr. Paulo Eduardo de Oliveira

 

A criança interior

 

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“Isso é absurdo”, afirmam os mais céticos ao ouvirem a ideia de que a criança que um dia nós fomos ainda está viva em nós.

 

Confesso que eu também, quando me deparei com esta ideia pela primeira vez, ainda mergulhado apenas numa visão filosófica e racional das coisas, também achei que fosse algo difícil de entender e aceitar. Afinal, vai contra o senso comum, que acredita que, quando crescemos, tudo amadurece em nós na mesma medida e proporção. Grande engano!

 

O aprofundamento dos meus estudos no campo da psicologia do profundo, isto é, da psicologia da mente inconsciente e, mais ainda, a experiência na área da Hipnose Clínica me convenceram desta verdade: a criança que nós fomos, um dia, ainda está viva e atuante dentro de nós.

 

Não importa se hoje temos 20, 50 ou 80 anos, alguns traços do nosso modo de ser e dos nossos padrões de pensamento e de comportamento ainda revelam o rosto daquele menino ou daquela menina, sobretudo em nossos limites, falhas e carências.

 

Neste artigo, eu quero ajudar você a compreender este fato e suas implicações, principalmente no que se refere aos processos de reprogramação mental, a tônica do nosso trabalho de formação e terapia.

 

O cérebro humano e, por consequência, a mente humana são as últimas estruturas (orgânica e psíquica) que se desenvolvem em nós, completando sua formação somente mais ou menos 15 anos após o nascimento.

 

Isso tem consequências muito importantes para a nossa vida. A principal delas é que a infância se torna uma fase decisiva da formação da nossa personalidade, justamente porque muitas experiências ali vividas (de modo especial as experiências negativas e traumáticas) ainda não podem ser compreendidas e assimiladas pela criança de forma adequada. Assim, nem sempre a interpretação dos fatos internalizada pela criança é saudável e positiva. E isso pode gerar uma série de complicações ao longo da vida, mesmo na fase adulta e até mesmo na senilidade.

 

A criança, naturalmente, tem limitações em sua visão e compreensão do mundo e da realidade à sua volta. Ela está muito mais mergulhada nas profundezas da sua mente inconsciente, enquanto a sua “consciência” vai sendo formada paulatinamente. Desse modo, a maior parte das vivências da infância fica registrada diretamente no inconsciente da criança. É por essa razão que a maioria das pessoas tem poucas lembranças dessa fase da vida, limitando suas recordações a episódios esporádicos e pontuais, enquanto o grande volume das memórias e lembranças infantis permanece muito bem guardado em sua mente inconsciente.

 

Sem consciência plena e com a mente inconsciente aberta e sensível, a criança recebe do ambiente e das pessoas ao seu redor muitas “mensagens”, verbais e não verbais, atitudinais e comportamentais, explícitas e implícitas, diretas e indiretas... etc. que vão sendo codificadas e aprendidas de acordo com sua capacidade mental e seu modo próprio de ser.

 

As atitudes e o comportamento típico dos pais e dos adultos significativos (tios, avós, professores), a tônica dos “diálogos em família”, o ambiente e o contexto familiar, os acontecimentos e as vivências, a forma como é tratada, o modo como recebe (ou não recebe) afeto, atenção e amor etc. são os principais elementos que vão formar, na mente da criança, uma espécie de “visão geral” (uma cosmovisão, para usar uma expressão filosófica) das coisas, do mundo, da vida, das pessoas e, em especial, a imagem de si mesma.

 

Sim, é isso mesmo: a imagem que a criança forma de si mesma é também resultado das “mensagens” que ela recebe do contexto e do ambiente em que está inserida e mergulhada.

 

Tais “mensagens” são interpretadas e internalizadas de forma inconsciente pela criança, obviamente a partir de recursos limitados de compreensão do mundo e de decodificação dos muitos estímulos e sinais que recebe. Por isso, nem sempre a interpretação feita pela criança e internalizada em sua mente inconsciente corresponde à realidade dos fatos. É, literalmente, uma interpretação infantil.

 

Tudo isso acontece na vida de todas as crianças, em contextos e ambientes mais ou menos tranquilos e equilibrados, como também em situações traumáticas e profundamente desajustadas.

 

É muito importante entender que a mente inconsciente é sutil e perspicaz: ela capta os sinais mais discretos e até mesmo imperceptíveis ao nosso modo costumeiro de enxergar as coisas. Por exemplo: o olhar aborrecido da mãe, ainda que discreto e até disfarçado, enquanto dá comida ao filho, não vai deixar de ser notado pela mente inconsciente da criança. Ou ainda: a sutil preferência que um pai tem por este ou aquele filho, expressa de forma imperceptível em seus gestos de carinho e atenção, também não deixará de ser notada pela mente inconsciente da criança menos amada. Ou ainda: o tom da voz da avó, expressando descontentamento, não deixará de ser notado pela mente inconsciente da criança, mesmo quando ela ouve palavras aparentemente tranquilas, como: “tudo bem, pode deixar que a vovó conserta seu brinquedo”.

 

Sinais não-verbais, expressões faciais, tonalidades de voz, gestos, atitudes, comportamentos, fatos e acontecimentos, além das palavras propriamente ditas, etc... etc... são “varridos” pelos radares superpoderosos da mente inconsciente da criança. E ela interpreta tudo (a seu modo) e internaliza em sua mente inconsciente todas as suas impressões e a tradução para si mesma dos muitos significados que tudo isso tem para ela.

 

Entre os elementos sutis percebidos pelas mente inconsciente da criança estão também o que poderíamos chamar de estruturas ocultas, isto é, aqueles padrões de comportamento ou de atitude ou de organização próprios de um determinado ambiente familiar e que, mesmo para os adultos, são traços não percebidos e não conscientes: um clima excessivamente sério e tenso; um ambiente muito rígido e formal; uma organização doméstica excessivamente ordenada e fixa; um nível de relacionamento distante e frio; uma rotina muito marcada; um padrão de comportamento excessivamente vigiado e controlado etc.

 

É claro que, nesse contexto todo, tudo afeta a mente inconsciente da criança, mas o que mais exerce impacto sobre ela são aquelas situações diretamente relacionadas a ela: as situações individuais têm mais peso do que as situações ambientais. Se o pai dá uma bronca no cachorro, por exemplo, isso afeta menos a criança do que quando a bronca é dirigida diretamente a ela.

 

Importa notar que, no que se refere às situações individuais, sobretudo em episódios com carga emocional negativa (que geram dor, tristeza, medo, mágoa, insegurança, rejeição, desafeto, desamor etc.), a criança faz uso de um recurso mental de autorreferência: ela interpreta tudo como se tivesse relação consigo mesma e, mais ainda, como se ela fosse a responsável e, pior ainda, a culpada. A bronca da mãe ou a irritação do pai ou o sinal de desgosto da avó “devem-se a mim, que sou culpada, desajeitada, incompetente, incapaz, inadequada... etc...”, pensa inconscientemente a criança. É claro que este “pensamento inconsciente” não é verbalizado dessa forma, pois muitas vezes a criança não domina ainda estes “conceitos”. Mas, os sentimentos e as impressões que a criança tem interiormente correspondem a essa interpretação autorreferente da situação.

 

A falta de amor e de afeto que uma criança sofre também será por ela interpretada a partir da autorreferência: “eu não mereço nem sou digna de receber amor e afeto”. É por isso que, muitas vezes, a criança agride a si mesma (ou seus brinquedos, que são como que uma extensão de si mesma) quando sofre determinada situação em que se sente pouco amada e carente de afeto. A revolta dela se volta contra ela mesma.

 

A criança nunca vai acusar os pais: a acusação dos pais é atitude adulta! A acusação dos pais, pela criança, poderia levar à perda do amor paterno e materno, o que poderia resultar em abandono e risco de sobrevivência da criança. Por isso, nossos mecanismos inconscientes de autoproteção e de autopreservação impedem esta atitude. Não podendo inconscientemente culpar os pais, só resta à mente da criança entender que o aborrecimento (e a violência e a agressividade etc.) dos pais é culpa da própria criança.

 

É assim que surgem alguns dos padrões de pensamento negativos e limitadores que nos prejudicam ao longo da vida. Sentimentos de impotência e de incapacidade, sentimentos de rejeição e de abandono, sentimentos de inadequação e de deslocamento, sentimentos de culpa e de não-merecimento, atitudes de autossabotagem etc. geralmente estão associados a estas situações negativas vividas pela nossa criança interior.

 

Situações “aparentemente positivas” também podem gerar interpretações autorreferentes negativas na criança: a criança superprotegida pode se sentir incapaz (“cuidam tanto de mim porque sou incapaz e desajeitada de fazer por mim mesma”). A criança excessivamente amada (o amor também tem limite!) pode se sentir frágil e indefesa. A criança que vive num ambiente permissivo (tudo pode!) pode se sentir irresponsável. A criança mimada pode se sentir incompetente e incapaz!

 

Os contos de fadas e as histórias infantis, assim como as vivências paradisíacas da infância também acabam gerando registros e memórias em nossa criança interior. Não é sem razão a nostalgia que nós, adultos, sentimos em alguns momentos da nossa vida, remetendo-nos aos anos dourados da infância. Muitos adultos ainda têm saudades do colo do pai ou da mãe ou da sensação de acolhimento e de harmonia do antigo lar familiar. Algumas memórias felizes da infância são conservadas como fator de alento ao longo de toda a nossa vida! É a nossa criança interior que está viva e alegre dentro de nós!

 

O fato mais impressionante para a compreensão da nossa criança interior é este: todas essas vivências infantis (assim como a interpretação que a criança dá a elas e a forma como as internaliza na mente inconsciente) sofrem um processo de estagnação no tempo. Tornam-se memórias e registros fixos e inalterados. Não evoluem e não crescem à medida que a criança vai crescendo. São registros que não se tornaram adultos! Não passaram pelo processo de “retradução” a partir dos recursos mentais que a mente adulta dispõe.

 

É por isso que, em muitos de nossos comportamentos e de nossas atitudes, como adultos, ainda parecemos infantis: quem de nós nunca agiu como uma criança birrenta de cinco anos? Quem de nós nunca se deitou em posição fetal nos momentos de tristeza, desânimo e depressão? Quem de nós não “chutou o balde” da maturidade em situações tensas e conflitivas? Na verdade, agimos assim porque nossa criança interior se manifesta, exatamente da mesma forma como agíamos quando tínhamos aquela idade.

 

De outro lado, quem de nós não se sente alegre, leve e vibrante como uma criança num passeio tranquilo e feliz, numa partida de futebol com os amigos, num domingo na praia, numa festa descontraída, num churrasco com a família... Quem nunca viu um avô voltar a ser criança ao brincar com o netinho no gramado de casa? Quem nunca viu uma professora voltar a ser criança com sua turminha de alunos de 4 ou 5 anos de idade? Será que sempre agimos como “adultos”, sérios, tensos e sisudos? De fato, não podemos negar que nossa criança interior ainda vive em nós (ainda bem!).

 

Nos consultórios de psicologia e de psiquiatria, nas sessões de terapia e de coaching, geralmente ouvimos conselhos como: “seja mais leve, seja mais flexível; não seja tão rígido; arrisque mais; solte-se mais; não se cobre tanto... etc”. Em outras palavras: seja mais criança! (É óbvio que ser criança não é o mesmo que ser infantil, acho que isso está mais do que claro). Sim, existe um ganho incalculável em aproveitar as características positivas da mente da criança para a nossa própria saúde mental!

 

Para finalizar estas reflexões sobre nossa criança interior, eu gostaria ainda de dizer umas palavras sobre o processo de reprogramação mental no que se refere às nossas vivências da infância.

 

É verdade que muitos dos nossos padrões de pensamento e nossos comportamentos negativos e limitadores têm sua raiz em nossas vivências negativas e talvez até traumáticas da infância. Por mais amor que tenhamos recebido dos nossos pais (eles fizeram o que poderiam fazer, carregando dentro de si suas próprias crianças interiores), ninguém de nós saiu ileso de cargas negativas mais ou menos intensas e profundas. Faz parte da natureza humana o enfrentamento de desafios, sofrimentos e tensões!

 

O que fazer, então? O processo de reprogramação mental é uma oportunidade de rever alguns registros mentais da nossa criança interior. Uma criança interior, com suas carências e limitações, ainda se manifesta em nós trazendo as mesmas carências e limitações. Não importa se temos mais ou menos idade, ainda podemos ter comportamentos derivados desta criança imatura e necessitada de apoio e de atenção que vive dentro de nós. Ninguém de nós está imune a esta situação (nem os terapeutas!).

 

A reprogramação mental pode nos ajudar a perceber os traços desta nossa criança interior: suas necessidades não atendidas; suas carências ainda em aberto; seus medos inconfessos; sua raiva contida; seus receios camuflados; seus traumas e pavores ainda latentes; seus complexos de culpa; seus sentimentos de rejeição; sua visão negativa de si mesma etc... etc.

 

Depois de perceber tudo isso, podemos oferecer a esta criança interior alguns recursos mais maduros para “reinterpretar” os fatos da nossa vida e “ressignificar” os acontecimentos e episódios da nossa jornada que precisam de um novo olhar, que precisam de mais luz e que podem ser contemplados a partir de uma nova perspectiva. Mudando o ângulo de visão, muitas coisas dolorosas passam a ser vistas numa perspectiva menos dolorosa. A dor já passou! O passado ficou no passado, como eu disse em outro artigo! Mas, nossa criança interior talvez ainda não tenha percebido isso! É nisso que a reprogramação mental pode nos ajudar!

 

Eu faço votos de que estas reflexões possam servir a você como um farol a iluminar as sendas da sua criança interior! Que você possa aproveitar a energia boa que vem desta criança que você foi (e continua sendo) e que você também possa ajudar essa criança a vencer os conflitos e as carências que, porventura, ela ainda carrega em suas pequenas mãos e em seu coração de criança!

 

E que você também possa ajudar as pessoas que você ama nesta caminhada de transformação pessoal, que passa pelo reconhecimento e pela atenção à nossa criança interior.

 

Prof. Dr. Paulo Eduardo de Oliveira