Minha

 MENTE

NOVA

Reprogramação mental ao seu alcance

Prof. Dr. Paulo Eduardo de Oliveira

 

Deixe o passado no passado

 

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O tempo tem grande influência em nossa vida: o que fomos, o que somos e o que seremos estão entrelaçados, constituindo as teias da nossa história de vida.


Diferentemente dos animais não racionais, que vivem apenas o momento presente, nós somos seres lançados na linha do tempo: podemos olhar para as memórias do passado, podemos perceber a realidade do presente e, ainda, podemos fazer projeções e planos para o futuro.

 

Com relação às nossas “programações mentais negativas”, o passado tem um peso maior, pois nossas programações são como que a bagagem do passado que ainda carregamos nas costas, interferindo em nosso presente e direcionando o nosso futuro.

 

Lá atrás nos aconteceu isso e aquilo e, por isso, hoje nós somos assim e assado! Lá atrás ocorreu esse ou aquele episódio, que marcou a nossa vida, e, por isso, amanhã eu ainda estarei carregando as consequências daquele acontecimento. Assim, nosso presente e nosso futuro já vêm carimbados com o selo do nosso passado.

 

É dessa trama entre passado, presente e futuro que nascem as concepções de destino, de predestinação, de herança, de “karma”, de sorte e de azar que acabam nos influenciando fortemente.

 

Entre os chamados “livros sapienciais” da Bíblia, podemos encontrar uma linha realmente impressionante, que nos ajuda a compreender a relação saudável que devemos ter com a nossa linha do tempo: “Tudo neste mundo tem o seu tempo; cada coisa tem a sua ocasião” (Eclesiastes 3,1).

 

É com esta lição de sabedoria que podemos refletir sobre a necessidade de deixar as coisas do passado no lugar onde elas realmente devem estar: no passado.

 

Isso não significa esquecer nem mesmo apagar as lembranças: nossa mente, embora muito assemelhada aos processos da “inteligência artificial” dos computadores, não pode simplesmente “deletar” uma memória ou “desinstalar” um programa, como fazemos tão facilmente em nossas máquinas digitais.

 

Tudo em nós está amarrado em nossa história de vida: arrancar um fato do nosso passado é, de certa forma, arrancar um pedaço de nós mesmos. Somos o que somos por causa daquilo que já fomos! E, amanhã, o que seremos terá também as marcas do que fomos.

 

Mas, muitos fatos do passado são dolorosos e, por vezes, ainda têm marcas e cicatrizes que sangram com facilidade. O que devemos fazer para conviver com isso e, ainda, conseguir estabilidade e equilíbrio para seguir em frente, com saúde física, mental, emocional e espiritual?

 

Podemos aprender a levar em consideração esses três aspectos:

 

1) Reconhecer que o passado já passou. Isso pode parecer simples jogo de palavras, mas não é, pois muitas vezes nós vivemos como se o passado ainda estivesse continuando a acontecer e a se repetir dia após dia em nossa vida, marcando cada “novo dia” com o selo daquele “velho dia”.

 

Muitas vezes, vivemos como se o passado ainda estivesse vivo dentro de nós! Mas, isso não é verdade, é apenas uma forma de compreender e de enxergar as coisas, é apenas uma programação mental negativa, que traz mil e um prejuízos a cada um de nós. Viver do passado é, sem sombra de dúvida, uma forma de viver pela metade e de comprometer o nosso presente e o nosso futuro.

 

O passado ficou no passado: por mais doloroso, sofrido e traumático que tenha sido, ficou para trás. E nós estamos aqui e agora, no presente, e somos sobreviventes daquele passado. Essa consciência é muito importante e é possível que aprendamos e reprogramemos a nossa mente para enxergar o passado dessa forma. Isso é uma condição fundamental para o nosso bem estar físico, mental, emocional e espiritual.

 

2) Entender que nós podemos enxergar as coisas negativas do passado de uma forma mais saudável. Deixar o passado no passado não é uma atitude ingênua, de quem poderia pensar que “aquilo não faz diferença” e se pode simplesmente fechar os olhos e tudo fica resolvido... Mais do que ajudar, essa atitude ingênua desvia-nos do problema, mantendo-o vivo dentro de nós: continuamos a conviver com o perigo, fazendo de conta que ele não existe.

 

É preciso uma atitude honesta e realista em relação ao passado. Muitos acontecimentos negativos do passado influenciaram decisivamente a nossa vida, fizeram toda a diferença, não podemos negar nem esquecer isso. Contudo, agora que já são coisas do passado, nós precisamos elaborar tudo isso de forma mais apropriada, a fim de que sirvam para nós como fator positivo. Isso mesmo: a reprogramação mental pode nos ajudar a fazer da memória negativa uma alavanca para gerar em nós um elemento positivo. Podemos fazer da dor um caminho para superar a dor!

 

Por mais trágicas que possam ter sido nossas experiências do passado, elas podem, agora, nos servir como base de sustentação para a nossa grandeza pessoal. Diz a sabedoria popular que “as madeiras mais fortes e resistentes crescem onde sopram os ventos mais fortes”. Em mil e uma biografias, podemos encontrar pessoas marcadas profundamente pela dor e que fizeram justamente da dor a força propulsora para irem além, para superarem as dificuldades e os limites e tornarem-se maiores e melhores do que eram.

 

O contrário também é verdadeiro: muitos afundam-se na dor e fazem dela o seu destino final. Mas, esse desfecho não é um caminho obrigatório. Há outros caminhos, há muitas alternativas que podem nos tirar da dor e nos conduzir a uma vida mais feliz, embora carreguemos cicatrizes.

 

3) Fazer as pazes com nosso passado. As duas considerações precedentes nos levam a entender que “viver de mal” com o passado é uma opção inadequada. Não nos leva a lugar algum e, de quebra, ainda limita o nosso horizonte de possibilidades. Viver de mal com o passado é como fechar-se num antigo casebre, o casebre das nossas experiências traumáticas, e jurar nunca mais abrir a porta ou as janelas para ver o horizonte e seguir em frente.

 

Fazer as pazes com nosso passado não é, de forma alguma, “apagar” o passado ou “esquecer-se” dele. Isso é impossível, sobretudo quando a carga emocional das nossas dores foi terrivelmente pesada. Quanto maior a carga emocional, mais fortes são as nossas memórias (para o bem ou para o mal). Pense nos fatos positivos e negativos da sua vida, com forte carga emocional, e você vai facilmente se certificar dessa realidade.

 

Fazer as pazes com o passado é aprender a reprogramar a nossa mente para colocar o passado no lugar dele, para elaborar de forma positiva as nossas dores, para abrir as janelas e a porta da nossa morada interior.

 

Disso resultará uma disposição interior para perdoar e perdoar-se. E como é difícil perdoar aos outros e, muitas vezes, é ainda mais difícil perdoar a si mesmo. Mas, não há alternativa: sem perdão, no sentido mais profundo e decisivo do termo, não pode haver em nós mudança profunda nem transformação verdadeira da forma como nos relacionamos com nosso passado.

 

Aqui não temos espaço suficiente para analisar o tema do perdão, no sentido existencial e psicológico, sobretudo em sua relação com o processo de reprogramação mental. Em outro artigo, trataremos dessa questão. Contudo, basta neste momento que compreendamos que perdoar não é esquecer ou fazer de conta que nada aconteceu ou simplesmente aceitar que se reparem os danos. As consequências de nossos erros e dos erros das outras pessoas são, por vezes, irreversíveis.

 

Nesse sentido, portanto, perdoar significa desvincular-se daquele fato: cortar a corda que nos prende e que prende aos outros. Cortar o vínculo mental! É uma atitude de liberdade e de libertação, de nós mesmos e dos outros. Isso não se faz como num passe de mágica, não vamos nos iludir: mas, também não caímos na ilusão de pensar que isso é impossível. A reprogramação mental nos ajuda a fazer esse caminho, essa trajetória do perdão.

 

Com essas reflexões, espero poder ajudar você a se relacionar de forma mais tranquila e pacífica com seu passado. Aos poucos, passo a passo, um dia após o outro, você vai percebendo que as coisas começam a ganhar um novo sentido e aquilo que ficou para trás vai deixar de ser arrastado por você como uma carga de sofrimento, desnecessária e prejudicial. É isso o que eu desejo, de coração, a você!

 

Prof. Dr. Paulo Eduardo de Oliveira