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Hipnose Clínica e Reprogramação Mental

Prof. Dr. Paulo Eduardo de Oliveira

 

Hipnose Clínica: quebrando alguns mitos

 

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Cada vez mais as pessoas estão tomando consciência do valor terapêutico da Hipnose. Contudo, infelizmente, há ainda muita confusão e alguns mitos são conservados e difundidos. Para elucidar um pouco mais a questão, este artigo procura apresentar uma visão panorâmica da Hipnose Clínica, ou seja, da Hipnose utilizada para fins terapêuticos e de promoção da saúde (1).

 

Os benefícios da Hipnose são inúmeros e vão desde tratar simples medos e fobias, até problemáticas ou distúrbios mais complexos, como ansiedade e depressão. Como aliada no desempenho profissional, ela é capaz ainda de aumentar a motivação, melhorar a autoestima e promover o autoconhecimento. Pode também ser utilizada para facilitar os processos de aprendizagem e educação.

 

Em primeiro lugar, é preciso entender que a Hipnose não é mágica, nem truque, muito menos bruxaria e tampouco algo místico ou coisa de outro mundo, como também não está associada a nenhum elemento espiritual ou esotérico. Essas visões distorcidas são fruto de desinformação e ignorância, que muitas vezes atrapalham as pessoas e as impedem de aproveitar os benefícios da Hipnose para a recuperação da saúde e para a conquista de maior qualidade de vida.

 

O cinema e a indústria de entretenimento, infelizmente, também acabam prejudicando a visão realista das pessoas sobre a Hipnose. Em filmes e shows de palco, geralmente apresenta-se uma pessoa hipnotizada sendo exposta a situações constrangedoras, como se fosse um robô controlado pelo hipnotizador, ou ainda sendo levada a realizar tarefas contra sua vontade, como imitar um animal ou um bebê. Isso é lamentável, pois leva muitas pessoas a desconsiderar a Hipnose como caminho terapêutico.

 

Infelizmente, também alguns grupos religiosos acabam associando a Hipnose a fenômenos espirituais, como controle da mente por espíritos etc. Nada está mais distante da verdade do que isso: as pessoas precisam se informar melhor, a fim de não perderem a oportunidade de utilizar as potencialidades naturais da Hipnose para a promoção da saúde e da qualidade de vida. O próprio Papa Pio XII, num pronunciamento datado de 24 de fevereiro de 1957, reconheceu o valor terapêutico da Hipnose (2).

 

O que é, afinal, a Hipnose? A Hipnose é, tão somente, uma habilidade natural dos seres humanos de acessarem um estado de consciência mais profundo, que lhes permite ter o controle da própria mente. Portanto, trata-se de uma técnica ou ferramenta que ajuda as pessoas a usarem o potencial da mente de forma mais efetiva e eficaz, com o propósito de promover saúde, equilíbrio físico e mental, qualidade de vida, satisfação pessoal e realização humana.

 

A Hipnose Clínica é, portanto, um método terapêutico, ou seja, um tratamento de saúde plenamente reconhecido pelos Conselhos Federais de Medicina, Odontologia, Psicologia, Fisioterapia e Terapia Ocupacional. Nos últimos anos, no Brasil, surgiram diversas associações e entidades que promovem o estudo e a disseminação da Hipnose Clínica, como a Sociedade Interamericana de Hipnose, a Sociedade Brasileira de Hipnose, o Instituto Brasileiro de Hipnologia e a Associação Brasileira de Hipnose, entre outras. Nos Estados Unidos, a Hipnose é regulamentada há mais de 30 anos, sobretudo em razão da grande influência do Dr. Milton Erickson, o psiquiatra americano que criou um método personalizado de hipnoterapia e que inspirou o desenvolvimento de outras abordagens terapêuticas, como a Programação Neurolinguística, por exemplo.

 

O assim chamado “estado hipnótico” (ou transe hipnótico) é um fenômeno neurológico totalmente natural, obtido sem uso de qualquer substância ou medicamento, e que é capaz de alterar o estado normal de consciência das pessoas, ajudando-as a acessarem um nível de consciência mais profundo e focado. Na vida diária, todos nós experimentamos esse efeito natural do “estado hipnótico”: quando estamos tão concentrados na leitura de um livro ou assistindo a um filme que nem percebemos o que acontece à nossa volta, por exemplo; ou quando estamos absortos em nossos pensamentos, enquanto dirigimos para casa, que nem percebemos o trajeto que fizemos e, quando nos damos conta, já estamos no portão de casa.

 

Isso que acontece de forma espontânea na vida diária é obtido de forma orientada na Hipnose Clínica. O hipnoterapeuta (isto é, o profissional habilitado para o uso da Hipnose Clínica), por meio de técnicas de comunicação específicas, ajuda as pessoas a obterem este mesmo estado profundo de consciência. Neste estado, sob a orientação cuidadosa e competente do hipnoterapeuta, as pessoas conseguem utilizar o poder focado da consciência para resolver conflitos interiores, solucionar problemas de saúde física e emocional, acabar com traumas e fobias, eliminar estados depressivos, superar vícios e compulsões, além de uma série de outras aplicações terapêuticas. Trata-se, portanto, de algo perfeitamente natural, que aproveita os recursos fisiológicos do corpo e da mente para promover saúde integral. Nada mais que isso! Portanto, não há nada mais equivocado e estranho à Hipnose do que associá-la a “poderes mágicos” ou “forças esotéricas” que agem sobre a mente das pessoas.

 

Talvez seja interessante considerarmos também alguns elementos da história da Hipnose, para clarear ainda mais nossa visão a respeito. A Hipnose é tão antiga quanto a humanidade. Diversos autores relatam práticas hipnóticas em tempos e povos antigos, como entre os gregos, os egípcios, os tupis e entre tribos primitivas da África e da Austrália, entre outros. Na antiguidade, como revelaram os estudos de antropologia cultural e religiosa de Bronisław Malinowski e de Mircea Eliade, para citar apenas dois nomes extremamente relevantes nesse campo de estudo, a visão de mundo estava sempre associada a uma interpretação mítica da realidade. Nesse sentido, não poderíamos supor que a Hipnose pudesse ser compreendida, naquele contexto, a partir de outra perspectiva: a própria medicina, com efeito, era também influenciada por aquela visão de mundo. Porém, à medida que a ciência foi se desvinculando dessa mentalidade mítica, também o estudo da Hipnose passou a ser feito com bases e pressupostos mais filosóficos e científicos.

 

A história moderna da Hipnose começou em 1776, com a tese de doutorado do médico alemão Franz Anton Mesmer, que estudou profundamente o tema e ajudou a difundi-lo a partir de uma abordagem científica. Em 1843, o médico escocês James Braid deu continuidade às pesquisas sobre o tema, com uma abordagem que se tornou ainda mais aceita pela comunidade científica da época. Foi Braid quem deu à técnica o nome pelo qual é conhecida atualmente, derivado do termo Hypnos, que designa o deus do sono na mitologia grega. Esse termo favoreceu a confusão popular entre o “estado hipnótico” e o “sono profundo” e, por isso, mais tarde, o próprio Doutor Braid tentou mudar para outro termo, mas o conceito de Hipnose já estava bastante difundido nos meios populares e científicos.

 

O cirurgião escocês James Esdaile, na primeira metade do século XIX, substituiu o uso da anestesia pela Hipnose em mais de 3 mil cirurgias. Também durante a Segunda Guerra Mundial, na falta de anestesia, alguns médicos utilizavam a Hipnose para realizar procedimentos e mesmo cirurgias nos pacientes. Nesse caso, a técnica funciona como um bloqueio da dor e, por esta razão, recentemente a Hipnose começou a ser usada como complemento ao tratamento de pacientes com câncer e outras doenças crônicas. Muitos odontólogos também a utilizam para o tratamento de pacientes que não podem fazer uso de anestésico químico.

 

No final do século XIX e no início do século XX, outros importantes cientistas dedicaram-se ao estudo da Hipnose, como o francês Jean-Martin Charcot, considerado o pai da neurologia, e o médico fisiologista russo Ivan Pavlov, conhecido principalmente por suas pesquisas sobre condicionamento reflexo. O famoso neurologista Sigmund Freud, criador da Psicanálise, também utilizou a Hipnose no início de sua carreira e, no final de sua vida, voltou a admitir a importância terapêutica da Hipnose. A segunda metade do século XX foi relevante para um ainda maior reconhecimento e uma maior aceitação da Hipnose nos meios acadêmico e científico.

 

O psicólogo americano Alfred Barrios, em 1970, publicou um estudo com dados realmente surpreendentes sobre a eficácia da Hipnose Clínica (3). Ele comparou a efetividade terapêutica da hipnoterapia com a de outras duas modalidades: a psicanálise e a terapia comportamental. Segundo Barrios, enquanto na psicanálise foi possível atingir uma taxa de recuperação de 38% em uma média de 600 sessões, e com a terapia comportamental a taxa média de sucesso no tratamento foi de 72% em 22 sessões, com a hipnoterapia o índice de recuperação chegou a 93% em apenas 6 sessões. Em 1997, o psiquiatra americano Henry Szechtman realizou diversos estudos, confirmando as principais teses acerca da natureza e das propriedades da Hipnose.

 

Alguns esclarecimentos podem ser úteis para as pessoas compreenderem melhor a natureza da Hipnose, sem confundi-la com outras situações:

 

- Hipnose e meditação não são sinônimos. Apesar de as duas técnicas alterarem o estado de consciência de uma pessoa, os objetivos são diferentes.

 

- Transe hipnótico não é o mesmo que sono profundo. No transe hipnótico, a pessoa fica extremamente concentrada em algo específico, mas não está dormindo. Nesse estado, o paciente é capaz de conduzir seus pensamentos e pode lembrar-se de tudo que ouviu e falou. Já durante o sono, o paciente não tem controle sobre seus pensamentos e nem sempre se lembra do que sonhou.

 

- Não é possível ficar “preso no transe hipnótico”, isso é simplesmente um mito. Transe é um estado de concentração profundo. Contudo, se o paciente quiser abrir os olhos e falar ou mover-se, isso é perfeitamente possível.

 

- Durante a Hipnose, o paciente não fica inconsciente. A Hipnose, como já foi dito, é um estado de consciência alterada, não de inconsciência. Ou seja, é uma forma de atenção focada, mas que não leva a pessoa a ficar inconsciente.

 

- O hipnoterapeuta não tem poderes especiais, mágicos ou esotéricos, de controle da mente das pessoas. Ele é apenas um facilitador ou mediador. É um conhecedor de técnicas específicas que podem ajudar o paciente a entrar em um estado de concentração propício às mudanças que quer e/ou precisa realizar em sua vida.

 

- O hipnoterapeuta não pode controlar a mente do paciente. Durante o transe hipnótico, ele o ajudará, por exemplo, a ressignificar uma experiência vivida na infância que pode ter ocasionado um trauma ou uma fobia. O especialista apenas prestará auxílio, jamais controlará a mente do paciente.

 

- Durante a Hipnose não é possível apagar memórias. Pelo contrário, o paciente terá a oportunidade de recordar momentos que já estavam esquecidos, a fim de compreender e elaborar melhor seu conteúdo mental.

 

Durante a sessão de hipnoterapia, a atenção do paciente está totalmente focada e concentrada. É como uma espécie de “raio laser de consciência”, que amplia o poder da mente no foco de atenção. Desse modo, a pessoa consegue acessar mais facilmente os elementos do seu subconsciente, ou seja, aquelas memórias guardadas abaixo do nível da consciência e que não conseguimos acessar fora do estado hipnótico. Por meio desse acesso, é possível desencadear o processo terapêutico para a superação de traumas, fobias, transtornos, complexos e outras dificuldades e doenças. No tratamento da ansiedade ou do Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), por exemplo, as chances de descobrir suas causas são muito maiores por meio do uso da Hipnose. O mesmo ocorre com diversos tipos de traumas, dos quais grande parte é causada por incidentes de forte carga emocional e que, por essa razão, ficaram registrados na mente subconsciente. Nessas situações, o hipnoterapeuta ajuda o paciente a acessar a “memória traumática”, de modo a processar aquelas informações e promover um processo de compreensão e de ressignificação daquela memória. Todo o processo é feito de forma gradual, passo a passo, até o momento da plena recuperação clínica do paciente.

 

Sem a pretensão de ter esgotado o tratamento do tema, creio que estas considerações são suficientes para ajudar as pessoas a “quebrarem os mitos” e superarem alguns receios e eventuais resistências quanto ao uso da Hipnose Clínica. Para quem desejar aprofundar ainda mais o estudo do tema, sugiro uma interessante matéria publicada no caderno de Ciência da “Revista Veja”, sob o título: “Hipnose: dos picadeiros aos consultórios” (4). Para quem preferir algo mais substancial, poderá consultar o livro “Contemporary hypnosis research”, da autoria de Erika Fromm e Michael R. Nash e, ainda, a obra “Hipnose na Prática Clínica”, de autoria do neurologista Dr. Marlus Vinicius Costa Ferreira, Membro da Sociedade de Hipnologia do Paraná.

 

Faço votos de que muitas pessoas possam se beneficiar cada vez mais do potencial de sua mente, utilizando a Hipnose Clínica como recurso terapêutico para a superação das situações problemáticas em suas vidas. E que se tornem pessoas mais felizes e realizadas!

 

Prof. Dr. Paulo Eduardo de Oliveira

 

 

NOTAS

 

(1) Neste artigo, como elemento de fundamentação teórica, utilizei o importante trabalho publicado pela Sociedade Interamericana de Hipnose, da qual recebi formação terapêutica e sou membro filiado. Para mais informações sobre o tema, pode-se acessar o seguinte endereço eletrônico:

http://sociedadeinteramericanadehipnose.com/blog/hipnose-na-pratica-um-guia-com-tudo-o-que-voce-precisa-saber.

 

(2) Discurso del Santo Padre Pío XII sobre las Implicaciones Religiosas y Morales de la Analgesia. Disponível em: http://w2.vatican.va/content/pius-xii/es/speeches/1957/documents/hf_p-xii_spe_19570224_anestesiologia.html.

 

(3) BARRIOS, A.A., “Toward understanding the effectiveness of hypnotherapy: A Combined clinical, theoretical and experimental approach”, Doctoral dissertation, University of California, Los Angeles, 1969.

 

(4) “Hipnose: dos picadeiros aos consultórios”. Revista Veja. Artigo disponível em: https://complemento.veja.abril.com.br/ciencia/hipnose-dos-picadeiros-aos-consultorios/.