Minha

 MENTE

NOVA

Reprogramação mental ao seu alcance

Prof. Dr. Paulo Eduardo de Oliveira

 

Otimismo (e pessimismo) se aprende!

 

otimismo-760x533-1-700x525.jpg

O otimismo, assim como o pessimismo, não são heranças genéticas: ninguém de nós nasce predeterminado a ver a vida a partir de uma perspectiva positiva ou de uma perspectiva negativa. Nós aprendemos a ser otimistas ou, ao contrário, a ser pessimistas.

 

Neste artigo, eu quero refletir com você sobre como nós desenvolvemos a “programação mental” do otimismo e a do pessimismo. E como isso interfere decisivamente em nossa vida, em todos os aspectos da nossa existência.

 

Muitas pessoas achavam que Thomas Edison era, simplesmente, teimoso e obstinado! Depois de errar milhares de vezes em seus experimentos para a criação da lâmpada elétrica, alguém lhe disse: “Por que você não desiste? Já fracassou tantas vezes!”, ao que ele respondeu: “Eu não fracassei: eu descobri milhares de formas de como não se deve construir a lâmpada elétrica!” Ao final, a “bendita teimosia” de Edison venceu e, hoje, todos nós podemos nos beneficiar de seu invento revolucionário.

 

A diferença de visão de Thomas Edison e de seus críticos expressa bem a realidade mental do otimismo e do pessimismo. Digo realidade mental porque se trata, tão somente, de uma estrutura de pensamento ou, como eu costumo dizer, de um padrão de pensamento. A forma como nós enxergamos, interpretamos e significamos as coisas não depende apenas das coisas em si mesmas, mas do modo como nossa mente foi habituada (treinada, ensinada, programada) a enxergar, interpretar e significar as coisas.

 

É claro que há realidades em si mesmas “negativas”, como o sofrimento, a injustiça, a violência, a dor e a própria morte! Não podemos negar isso! Porém, as pessoas com programação mental otimista conseguem, apesar da dor e do sofrimento, enxergar em tudo algo que se possa aproveitar, nem que seja uma lição a mais a aprender, ou uma força maior que se obtém quando é preciso lutar mais, ou ainda uma capacidade maior de resistir e de seguir adiante, ou mesmo a lição da paciência e da serenidade na espera.

 

O que faz o otimista enxergar o copo meio cheio? O que faz o pessimista enxergar o copo meio vazio? Apenas as lentes que cada um deles utiliza para enxergar o mundo, a realidade e a vida.

 

Alguns de nós aprendemos a utilizar lentes positivas: desenvolvemos a capacidade mental de, em tudo, sempre procurar enxergar o lado bom, a oportunidade escondida, o benefício sutil, o ganho implícito. Por mais que haja dificuldades, sabemos contornar os obstáculos, manter a cabeça erguida e o olhar fixo no horizonte almejado. É claro que, ao fazer isso, nem sempre conseguimos ser poupados da dor e do sofrimento. Porém, apesar disso, ainda mantemos a chama da esperança e da confiança acesas e seguimos em frente, mesmo com lágrimas nos olhos e um aperto no coração.

 

É fácil viver assim? Claro que não! Nem mesmo romântico ou poético! Mas é ainda melhor do que deixar-se afundar no lodaçal de um pessimismo que, literalmente, vai nos matando em doses homeopáticas.

 

Porém, outros de nós não conseguimos ver as coisas dessa forma. Somos seguidores fiéis da Lei de Murphy: acreditamos piamente que, se algo pode dar errado, vai dar errado. Enxergamos tudo por meio de lentes negativas, que obscurecem qualquer chance (ainda que minúscula) de se obter êxito. Ficamos presos e amarrados ao negativo: vemos mais o que nos falta do que aquilo que já possuímos; sublinhamos mais os erros do que os acertos; fixamos nossos olhos mais nos riscos e perigos do que nas oportunidades e vantagens; contabilizamos mais as perdas do que os ganhos. Em tudo, sempre o lado sombrio parece, paradoxalmente, “brilhar” mais aos nossos olhos.

 

Para todos nós, otimistas ou pessimistas, o processo mental funciona exatamente do mesmo modo! Todos nós, otimistas ou pessimistas, somos guiados em nosso modo de ver, interpretar e significar a realidade a partir da programação mental que “roda” inconscientemente em nós. Fomos sendo ensinados, passo a passo, pouco a pouco, a enxergar as coisas a partir das lentes positivas ou a partir das lentes negativas.

 

Sim, é claro que nosso “jeito pessoal de ser” (temperamento, estilo de personalidade, estilo emocional do cérebro, como hoje se fala) também tem influência em nosso perfil otimista ou pessimista! Mas, não podemos negar o impacto do ambiente e de nossa história de vida, sobretudo nas fases de formação da infância. Como dizia o filósofo espanhol Ortega y Gasset, “eu sou eu e minhas circunstâncias”. Sim, somos a soma de nós mesmos com nossa história, nosso ambiente, nossa cultura, as curvas, descidas e subidas da nossa jornada pessoal! Tudo isso vai formando, em nossa mente, o nosso modo habitual de ver e entender as coisas. Esse modo habitual, que funciona independentemente da nossa vontade (porque habitual, inconsciente e automático) é que constitui a base das nossas programações mentais.

 

Imaginemos uma criança que cresce num ambiente impregnado de atmosfera otimista! Seus pais têm uma visão otimista, positiva e fortalecedora diante das coisas, da vida, do cotidiano, dos desafios e até mesmo dos problemas. “No final, tudo vai dar certo!” é seu lema preferido! À medida que cresce nesse ambiente otimista, a criança vai sendo tratada e ensinada a agir de forma também otimista. Os erros não têm o peso maior; as pequenas vitórias são enaltecidas; as dificuldades são contornadas com esperança; o foco central não está nos limites, mas nas possibilidades; o que falta jamais ofusca a visão do que se tem; as coisas boas sempre ganham maior destaque do que as coisas ruins e negativas... e assim por diante.

 

Na mente dessa criança, as trilhas neurais que vão sendo criadas conduzem sempre a um processo mental que busca incessantemente o lado positivo das coisas, mesmo naquelas situações em que as dificuldades e os problemas encobrem o que há de bom e proveitoso.

 

Não se trata de uma visão ingênua e infantil, carente do que alguns poderiam chamar de realismo frio. O realismo, por si só, não é nem negativo nem positivo: depende sempre da programação mental (otimista ou pessimista) de quem procura enxergar a realidade das coisas! Nesse sentido, vale o que a fenomenologia nos ensina: as coisas têm sentido de acordo com o sentido que nós lhes damos.

 

Voltemos ao nosso exemplo: essa criança cresce com uma programação mental de otimismo. Seus processos mentais foram, dia a dia, passo a passo, treinados (exercitados, habituados, programados) numa saudável rotina de otimismo.

 

Sim, como eu disse acima, não se podem negar os traços típicos de cada um: irmãos crescidos num mesmo ambiente nem sempre têm as mesmas programações mentais, isso é verdade! Porém, a força do ambiente, embora não seja determinante e definitiva, de modo absoluto, é decisiva na formação de nossas estruturas mentais! É mais fácil desenvolver uma programação mental otimista em uma atmosfera familiar de otimismo, do que num ambiente permeado pela negatividade e pelo pessimismo!

 

O contrário também é verdadeiro! Quando uma criança cresce bebendo sempre da fonte do pessimismo, sua programação mental pessimista vai sendo estruturada dia a dia, passo a passo, pouco a pouco. Ela vai aprendendo a “fazer a leitura” da realidade a partir da cartilha do pessimismo, utilizando o alfabeto e a gramática do pessimismo. Ela vai percebendo sutilmente (porque a mente inconsciente da criança é muito mais sensível e aberta do que a do adulto) todos os sinais de pessimismo nas atitudes, condutas e comportamentos de seus pais e dos adultos significativos em sua vida. Todas as palavras de pessimismo que ela ouve vão sendo sutilmente impressas em sua mente, como uma tatuagem que se vai fixando pouco a pouco. Todas as reações pessimistas dos adultos aos muitos “eventos da vida” passam a configurar o modo como essa criança começa a enxergar, interpretar e significar as coisas e os acontecimentos para si mesma. Então, com o passar dos anos, ela mesma passou a ver tudo a partir da lente negativa do pessimismo, tão embebida que estava por aquele ar pesado do ambiente em que cresceu. Sua mente foi paulatinamente programada para ela ser uma pessoa pessimista!

 

Como podemos perceber, o otimista e o pessimista não nascem prontos! Eles são moldados, lapidados, forjados pouco a pouco, no lento processo de programação mental pelo qual passaram em sua história de vida.

 

Viktor Frankl, o psiquiatra austríaco que sobreviveu aos campos de concentração nazistas e que mais tarde fundou a terceira escola de psicologia de Viena (ao lado das escolas de Freud e de Adler) tem algo muito importante a nos ensinar aqui. Ele fez a experiência concreta, dolorosa e terrível de ver como seus companheiros de prisão, embora condenados a um mesmo destino, conseguiam enxergar a vida de forma diferente, alguns com otimismo e outros com pessimismo. Frankl descobriu nestas atitudes opostas a força do “sentido da vida” como mola propulsora da visão otimista da realidade. Para ele, aqueles seus companheiros que tinham e conservavam um “sentido para viver” (uma família que os aguardava em casa, por exemplo), tinham mais forças para sobreviver aos horrores do campo de concentração. Porém, aqueles que viviam sem um “sentido para viver”, mais facilmente eram derrotados pelo peso dos sofrimentos ali experimentados.

 

Sem querer minimizar o peso do sofrimento da história de vida de cada pessoa, devemos ter em mente que a forma como as pessoas reagem ao que lhes acontece depende, em muito, de sua programação mental. O sofrimento de um campo de concentração é o mesmo para todos, em tese! A mente analítica não negaria esta afirmação! Contudo, a forma como cada qual enxerga, interpreta e dá significado àquele sofrimento difere em razão da programação mental que cada um carrega. Para Frankl, o ponto decisivo está no fato das pessoas terem ou não um “sentido para viver”.

 

De fato, parece ser uma realidade incontestável que, para muitas pessoas, os obstáculos encontrados no meio do caminho não são um decreto definitivo de fracasso! Elas usam a “sabedoria da água”, que nunca discute com seus obstáculos, mas desvia-os (ou fura-os) para poder seguir em frente.

 

Há pessoas doentes que chegam a conquistas maiores do que pessoas “sadias”; há pessoas física ou mentalmente limitadas que avançam mais do que pessoas que não têm tais dificuldades; há pessoas destituídas de recursos (materiais, financeiros ou culturais) que passam à frente de quem tem todas as oportunidades à disposição; há pessoas com marcas dolorosas em suas histórias de vida que parecem ter muito mais força e entusiasmo do que aqueles cujas biografias não têm borrões nem páginas em tinta vermelha. Como entender isso? A programação mental do otimismo (ou do pessimismo) é uma chave de leitura da questão (embora não seja a única, obviamente).

 

Há uma questão evolutiva aqui envolvida, sim, não podemos esquecer! O peso do negativo é maior! Para nos proteger de cair em perigo uma segunda vez, nossos processos mentais de memória gravam mais facilmente (e profundamente) as coisas negativas do que os fatos positivos que nos acontecem! Mas, nós temos como entender, driblar e contornar esse “cacoete genético” da nossa memória emocional. À medida que vamos tomando consciência (ah, a consciência, a chave da nossa transformação pessoal), nós vamos sendo cada vez mais capazes de enxergar mais as coisas boas e positivas da nossa vida e diminuir o zoom das coisas difíceis, complicadas, mal resolvidas e dolorosas.

 

Esta é a boa notícia dos processos de reprogramação mental: o nosso modo típico de ser e de agir (resultado das nossas aprendizagens de vida) não precisa ser nosso destino final. Se um dia aprendemos a enxergar tudo pela lente negativa do pessimismo, hoje podemos transformar o nosso modo de ver. É fácil e rápido? Nem tanto, mas é plenamente possível! O que foi sendo sedimentado aos poucos, ao longo de muitos anos, não pode ser simplesmente arrancado como num passe de mágica! A velha trilha cansada de ser tão pisada no meio da mata leva mais tempo para, de novo, ser recoberta pela grama e pela vegetação. Assim também acontece em nossa mente! Quanto mais reforçada foi uma programação mental, mais tenacidade e empenho precisamos imprimir em nossas ações de reprogramação (e de reaprendizagem). Veja como é difícil corrigir um velho hábito linguístico (um erro costumeiro ou uma mudança nas regras da gramática)! Tudo leva um certo tempo, até que a velha trilha neural seja substituída por uma nova trilha, mais iluminada e atraente! (Cuidado com as promessas de curas rápidas: o entusiasmo do momento pode gerar certo alívio, mas curar um mal pela raiz é um processo lento, assim como foi lento deixar aquela semente brotar e crescer. A natureza não queima etapas!).

 

É por isso que eu incentivo as pessoas a buscarem alternativas às suas velhas programações mentais negativas que têm trazido problemas e dificuldades à sua vida. Ninguém precisa viver como prisioneiro de sua própria mente! Nós podemos nos libertar! Nós podemos nos reprogramar, de forma natural, assim como naturalmente adquirimos as programações negativas que hoje amarram nossos pés e nos impedem de seguir adiante!

 

Se você se julga uma pessoa pessimista (e todos nós o somos, em maior ou menor medida), saiba que esta estação não precisa ser a última de sua jornada na vida! Você pode seguir adiante, aprendendo a reprogramar a sua mente, para enxergar novos caminhos, novos horizontes e novas oportunidades! Faço votos de que estas minhas reflexões possam ajudar você nesse tão importante (e bonito) processo de transformação pessoal.

 

Prof. Dr. Paulo Eduardo de Oliveira