Minha

 MENTE

NOVA

Reprogramação mental ao seu alcance

Prof. Dr. Paulo Eduardo de Oliveira

 

Pensamentos depressivos

 

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É verdade que a depressão é uma patologia séria e “não é apenas frescura”, como muitas pessoas costumam dizer. E o aumento significativo dos casos, na população mundial, em geral, exige de nós atenção, reflexão e cuidado.

 

Suas causas são multifatoriais, isto é, dependem de vários fatores e de diversas situações motivadoras:

 

- Podem ser questões orgânicas da química cerebral, que não produz de forma adequada os neurotransmissores responsáveis pelo funcionamento normal do cérebro e, por consequência, da mente.

 

- Podem ser também questões emocionais, advindas de uma sobrecarga emocional derivada de eventos traumáticos, situações emocionais mal resolvidas, experiências de vida problemáticas etc.

 

- Podem, ainda, derivar de contextos de pressão e de estresse no ambiente de trabalho, no ambiente familiar, na rotina de vida etc.

 

- Também podem advir de problemas de ordem religiosa e moral, medo excessivo, sentimento de culpabilidade excessiva, complexo de perfeição, nível exagerado de auto-exigência etc.

 

- Por fim, podem ser resultado de questões existenciais: problemas de identidade pessoal, falta de sentido da vida, imagem negativa de si mesmo, carência de valorização pessoal etc.

 

Certamente, esta lista não encerra todas as múltiplas causas dos estados depressivos, mas nos ajuda a ter uma visão um pouco mais ampla da questão.

 

Devemos considerar que estas causas ou situações motivadoras dos estados depressivos não se apresentam uma de cada vez, podendo haver a sobreposição entre elas, além de que elas também se entrelaçam, uma desencadeando a outra, uma reforçando a outra, uma sublinhando e acentuando a manifestação da outra. Trata-se de uma situação complexa, no sentido original da palavra: uma situação entrelaçada, tecida junto, amarrada na mesma trama, como os fios de um pano.

 

Se a causa é complexa, a solução também não é simples! Dos tratamentos com medicamentos à terapia, da terapia à meditação, da meditação à reprogramação mental, da reprogramação mental à transformação pessoal... etc... todos estes caminhos são ações importantes e válidas para o processo de tratamento e cura.

 

Quero destacar aqui um elemento muito importante e que, muitas vezes, passa despercebido quando nos referimos à depressão, suas causas e seus tratamentos: a qualidade dos nossos pensamentos.

 

Pensamentos não são apenas palavras soltas e inofensivas que vagueiam em nossa mente. Pensamentos são poderosos agentes de ação, poderosos gatilhos de comportamento, poderosos geradores de motivação, poderosos propulsores do nosso modo de ser.

 

Pensamentos são sementes, que guardam dentro de si um “potencial de ser”. Uma semente de cedro não é ainda um cedro, uma árvore gigante, resistente e forte... é apenas uma pequena semente, leve, frágil, diminuta e fraca. Mas, dentro dela, esconde-se o “potencial de ser”, a possibilidade de se tornar um cedro, a “chance” de vir a ser uma árvore gigante, o gérmen daquela árvore enorme, vistosa e imponente.

 

Para passar da condição de “potencial de ser” (semente) à “realidade de ser” (árvore), é preciso que aquela pequena semente seja apenas plantada e cultivada. Em linguagem aristotélica: para que a semente passe da condição de potência à condição de ato, é preciso que ela seja plantada e cultivada. Se não for plantada e cultivada, nunca deixará de ser apenas uma semente. Uma possibilidade não é jamais uma garantia! Uma chance não é jamais uma certeza!

 

Nossos pensamentos são assim! São sementes que, enquanto tal, são apenas uma possibilidade ou uma chance, mas jamais uma garantia ou uma certeza! Mas, se forem plantados e cultivados, dia a dia, passo a passo, pouco a pouco, nossos pensamentos transformam-se de pequenas sementes em enormes árvores, enraizadas nas profundezas do nosso psiquismo e que se estendem até às alturas da nossa mente.

 

O segredo está no cultivo: cultivar é semear, regar, cuidar, cortar o mato que nasce ao redor, dar atenção, ficar de olho para que ninguém arranque a semente nem o broto... etc... Quem não sabe o que é isso, experimente plantar uma semente de rosa e cuide dela até crescer e dar flores. Vai perceber o quanto isso é uma tarefa que exige empenho, atenção e perseverança!

 

O mesmo ocorre com nossos pensamentos! Eles não são sementes soltas ao vento, que vêm e vão conforme a direção da biruta! Eles não nascem e crescem sozinhos, espontaneamente, filhos sem pai nem mãe! Não, eles são cultivados... e cultivados por nós mesmos! Somos nós que os plantamos, regamos e deles cuidamos para que cresçam e deem flor e fruto!

 

Aquilo que pensamos, de forma consistente, rotineira, consciente ou inconscientemente, passa a ser um poderoso elemento da nossa própria constituição pessoal. Em outras palavras, eu me torno aquilo que penso de forma consistente, continuada, permanente. Por exemplo: alguém que cultive pensamentos positivos, fortalecedores, motivadores, energizantes... tende a tornar-se uma pessoa igualmente positiva, fortalecida, motivada e energizada. Alguém que cultive pensamentos de uma boa imagem pessoal, realista, coerente, inspiradora... tende também a tornar-se alguém que corresponde a estes pensamentos positivos cultivados.

 

O mesmo ocorre com os pensamentos negativos, limitadores e enfraquecedores! Ninguém se torna um fracassado porque um dia disse a si mesmo “eu sou um fracassado”. Não, para se tornar um fracassado, é preciso um trabalho empenhado, dedicado e perseverante, dia após dia, para cultivar a semente dos pensamentos de fracasso. Sim, é preciso empenho para ser “bem sucedido” no trabalho de se tornar uma pessoa fracassada! E tudo depende da qualidade das sementes dos nossos pensamentos!

 

O otimista não nasce otimista: ele cultiva sua semente de otimismo! O pessimista, da mesma forma!

 

Para muitas pessoas, isso pode parecer papo furado! Mas, para quem se dedica a estudar e a compreender os mecanismos da mente humana, sabe que é a mais pura realidade!

 

Nossa mente funciona a partir da criação de trilhas neurais, que são, literalmente, os caminhos que o cérebro percorre para encontrar nossas memórias (informações, dados, conteúdo, ideias, pensamentos, crenças, lembranças, conteúdos aprendidos... etc... etc...). Quando eu penso em minha infância, por exemplo, meu cérebro percorre milhares de quilômetros de trilhas neurais, os caminhos entre neurônios conectados pelas sinapses, para trazer à minha mente as memórias registradas em meus “arquivos mentais”. Tudo ocorre em fração de segundos, porque o processo acontece na velocidade da corrente elétrica (muito próxima da velocidade da luz) que percorre os caminhos neurais.

 

O resultado disso é que, quanto mais eu penso em determinada realidade, mais reforçadas ficam essas trilhas neurais. É como uma trilha no meio da mata: quando mais pisamos, mais acentuada ela fica.

 

É assim que nossos pensamentos recorrentes (e bem cultivados) vão se tornando, pouco a pouco, os nossos modos habituais de pensar. De tanto pensar de um determinado modo, acabo acostumando a minha mente a entender que este modo de pensar é o “correto”... o mais “adequado” e “óbvio”, e às vezes, para mim, é como se fosse a “única alternativa”.

 

Assim, nós vivemos pensando da forma como sempre pensamos. Ninguém cria uma trilha nova na mata todo dia: cada vez, segue pelo mesmo caminho já conhecido. Desse modo, passo a passo, pouco a pouco, nossos pensamentos frequentes se tornam padrões de pensamento, formas consistentes de pensar, formas fixas de entender a vida, modos permanentes de enxergar as coisas e, no fundo no fundo, nosso modo constante de ser.

 

Em que tudo isso se relaciona com a depressão, tema central desse artigo? O ponto fundamental que quero destacar é esse: apesar das muitas possíveis causas dos quadros de depressão, como eu disse acima, nossos padrões de pensamento negativos podem fortalecer e mesmo desencadear tais situações.

 

É isso mesmo! Nossos pensamentos não são simples “ideias inofensivas”, como alguém poderia pensar. Nossos pensamentos são sementes, creio que você entendeu bem o que eu quis demonstrar com essa metáfora. Quando cultivados, nossos pensamentos acabam germinando, crescendo e dando frutos (para o bem ou para o mal; para nos fortalecer ou nos enfraquecer; para construir ou destruir).

 

Pensamentos depressivos geram quadros de depressão! Pensamentos depressivos alimentam a depressão! Pensamentos depressivos são vitaminas para a depressão!

 

Eu acompanho algumas publicações feitas em “grupos de entre-ajuda” das redes sociais. Isso me ajuda a entender as pessoas! Acho curioso (e terrível) como a maioria dos posts é uma espécie de reforço do negativo, de manutenção dos estados depressivos, de simples constatação de sintomas e de sentimentos que as pessoas sentem e alimentam e compartilham. “Nossa, hoje estou péssimo... Estou cada vez pior... Não vejo saída!... A depressão está acabando comigo!” Tudo bem, são desabafos, e falar é importante, mas o problema é que não se sai disso! Não há um passo além, cai-se num círculo vicioso de pensamentos negativos que reforçam pensamentos negativos: “Estou mal e vou ficando cada vez pior”.

 

É preciso muito cuidado com isso! Depressão gera depressão! É como areia movediça: quanto mais nos mexemos, fixados naquilo, mais afundamos!

 

É preciso um trabalho sério de reprogramação mental para modificar nossos padrões de pensamento negativos e limitadores que geram e alimentam quadros depressivos.

 

Apenas a medicação (que é muito importante e, em alguns casos, indispensável) não é capaz de mudar a nossa química cerebral se nós não criamos condições mentais positivas, por nosso próprio empenho, para auxiliar e fortalecer todo o processo de tratamento. Não é sem razão que todo tratamento psiquiátrico exige o complemento da terapia psicológica: enquanto o medicamento age na química cerebral, a terapia age em nossas estruturas de pensamento, em nossas concepções de vida, em nossas memórias e lembranças existenciais etc. Ambos os aspectos estão profundamente amarrados, emaranhados e entrelaçados.

 

Poucas pessoas sabem disso ou levam isso a sério, mas é uma verdade científica incontestável: pensamentos negativos, por si mesmos, têm o poder de modificar nossa química cerebral. Detenha-se, por alguns instantes, a relembrar episódios dolorosos de sua vida e você vai perceber, concretamente, o que estou lhe dizendo. Seus estados emocionais se alteram, como resultado da enxurrada de hormônios (como cortisol, adrenalina, noradrenalina) que entram em sua corrente sanguínea. Em níveis adequados e em situações específicas, tais hormônios têm sua importância em nossa vida. Mas, quando presentes em níveis elevados e de forma constante, tornam-se elementos tóxicos, gerando distúrbios mentais, emocionais e físicos (psicossomáticos).

 

Quem conseguiria tornar-se livre da depressão enquanto sustenta padrões de pensamento depressivos?

 

É impossível curar-se da depressão enquanto cultivamos padrões de pensamento limitadores, negativos e enfraquecedores: “Eu sou um fracasso! Nada funciona para mim! Não sirvo para nada! Minha vida não tem sentido! Eu não mereço! Sou mesmo culpado! Estou pagando minha culpa! É impossível! É difícil demais! Não é para mim! Não vou conseguir!” etc... etc. Quando pensamentos como esses se tornam grandes cedros dentro da mossa mente, a depressão passa a ser um estado permanente, do qual é impossível se livrar sem cortar a árvore pela raiz.

 

Embora seja um trabalho árduo, não é impossível! A jornada pessoal de reprogramação mental pode nos ajudar nesse laborioso (e magnífico e compensador) trabalho de transformação pessoal e de cura! Nada é absoluto e definitivo em nossa vida enquanto ainda estamos vivos! Se não podemos mudar a realidade de alguns fatos em nossa vida, podemos mudar a forma como enxergamos e interpretamos e significamos esses fatos dentro de nós. Nisso está a diferença fundamental entre viver e, ao contrário, ser levado pela vida!

 

Espero que com essas reflexões eu possa ajudar você ou alguém que você ama a entender e a enfrentar de forma mais positiva a realidade da depressão! A depressão, na vida de ninguém, deve ser considerada como a última palavra! A vida pede (e permite) muito mais! Cultivemos melhores sementes de pensamento e nossa vida, passo a passo, pouco a pouco, vai sendo transformada na melhor versão de nós mesmos!

 

Prof. Dr. Paulo Eduardo de Oliveira