Minha

 MENTE

NOVA

Reprogramação mental ao seu alcance

Prof. Dr. Paulo Eduardo de Oliveira

 

Perdoar e Perdoar-se

 

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No artigo anterior, Deixe o passado no passado, eu falava da importância de fazer as pazes com o nosso passado. E, como passo fundamental para que isso aconteça, eu falava da necessidade de abrir-nos a uma “disposição interior para perdoar e perdoar-se”.

 

Eu dizia também: “E como é difícil perdoar aos outros e, muitas vezes, é ainda mais difícil perdoar a si mesmo. Mas, não há alternativa: sem perdão, no sentido mais profundo e decisivo do termo, não pode haver em nós mudança profunda nem transformação verdadeira da forma como nos relacionamos com nosso passado”.

 

Neste artigo, vamos analisar de modo um pouco mais profundo a importância e a necessidade do perdão para a nossa transformação pessoal, sobretudo no que diz respeito aos processos de reprogramação mental, tema central do nosso trabalho terapêutico.

 

As grandes tradições religiosas, do Ocidente e do Oriente, sem exceção, enfatizam a necessidade do perdão, cada uma a partir de sua própria base doutrinal. Recentemente, está se tornado muito divulgada e conhecida a antiga prática havaiana do Ho-oponopono, na qual o perdão constitui-se um de seus quatro pilares fundamentais.

 

Independentemente das razões de fé que justificam e incentivam a prática do perdão, existe uma necessidade natural do psiquismo humano de se ver livre dos laços psicológicos que nos prendem negativamente a alguém ou a algum acontecimento. Embora muitos acontecimentos possam nos ferir de forma grave e profunda, é preciso que, ao passar do tempo, nós façamos o desligamento mental daqueles episódios da nossa vida. Em outras palavras, é preciso romper os vínculos interiores que ainda nos ligam e prendem àqueles fatos.

 

Três fatores nos ajudam nesse processo de rompimento dos vínculos interiores com aquilo que nos machucou:

 

1) o distanciamento temporal: deixar que o tempo passe, deixar que os dias corram, não forçar a natureza, não apressar o ritmo natural das coisas, entender que tudo tem seu tempo;

 

2) o distanciamento espacial: afastar-se dos lugares e contextos que reavivam em nós as lembranças dolorosas, dar à nossa mente a condição de ver tudo de longe, a partir de outra perspectiva;

 

3) o distanciamento material: afastar-se de objetos, coisas, relíquias e fragmentos que nos remetem àquele episódio; jogar fora nosso velho e empoeirado “baú de tristes lembranças”.

 

Se nós pensarmos bem, é assim que ocorre o processo natural do luto. Pouco a pouco, passo a passo, o distanciamento temporal, o distanciamento espacial e o distanciamento material curam a dor da perda das pessoas que se foram. Quem não consegue fazer esse processo de triplo afastamento, acaba não sendo capaz de superar aquela perda: e quantos há que vivem nesta situação, como se tivessem partido junto com a outra pessoa. Nunca deixam de reavivar a memória dos dias, dos lugares e das coisas que remetem àquela pessoa.

 

O processo natural de distanciamento é capaz de curar nossas feridas. Mas, não é assim que costumamos agir: nossa programação mental típica nos leva geralmente a reprisar (e repisar) constantemente os fatos negativos em nossa mente: quantas vezes apertamos o “play” dos filmes mentais que registraram as situações negativas da nossa vida... Costumamos remoer e ruminar dentro de nós aqueles acontecimentos, revivendo internamente tudo o que se passou, em termos de pensamento, sentimentos e sensações (nossos três cérebros em ação).

 

Quando agimos assim, não nos damos conta de um processo curioso da mente humana: ela não distingue o passado do presente quando recordamos situações fortemente carregadas de emoções. Tudo o que lembramos é sentido pela mente como se estivesse acontecendo novamente, agora, neste exato momento, tudo outra vez. É por isso que uma simples lembrança desencadeia em nós, do ponto de vista psíquico, a mesma enxurrada de emoções (positivas ou negativas) de quando vivemos aquele acontecimento, lá atrás, no longínquo passado. Você pode perceber como isso ocorre em sua própria vida!

 

O pior dessa situação é que as lembranças negativas tendem a ser ainda mais fortes, pois a mente registra o negativo com mais peso, para nos preservar de cair na mesma situação uma segunda vez. Esse é um mecanismo evolutivo que nos salva em muitas situações de perigo, é verdade, mas que também nos impede de viver de forma mais tranquila e saudável em relação aos episódios tristes da nossa história de vida.

 

No seu livro Quebrando o hábito de ser você mesmo, o Dr. Joe Dispenza nos ensina, com rigor científico, como os sentimentos negativos, que carregamos ao longo de muitos anos, acabam viciando as células do nosso corpo a viverem mergulhadas em substâncias tóxicas, como os hormônios liberados pelo corpo (cortisol, adrenalina e noradrenalina) em situações de estresse, raiva, ressentimento, ataques de fúria, medo etc. Segundo ele, essa espécie de “dependência química” que desenvolvemos faz com que nosso corpo libere essas substâncias de forma mais ou menos permanente, mesmo depois que nos afastamos dos fatos geradores desses sentimentos negativos. Para esse cientista e pesquisador, essa situação explica muitas doenças físicas e psicossomáticas que as pessoas acabam desenvolvendo, incluindo o câncer e os problemas cardíacos.

 

Então, o que é preciso fazer para podermos viver de forma mais saudável, equilibrada e feliz? Precisamos, decididamente, aprender a perdoar, isto é, aprender a cortar os vínculos psíquicos com os acontecimentos negativos do nosso passado.

 

Isso não significa que você vai olhar para o passado triste e sorrir alegremente, como se nada tivesse acontecido. Isso também não implica você simplesmente tornar-se amigo de seus inimigos, de uma hora para a outra. Isso também não requer que você naturalmente esqueça, de uma vez por todas, aqueles acontecimentos e episódios negativos que marcaram a sua história de vida.

 

Do ponto de vista da reprogramação mental, perdoar aos outros e perdoar a si mesmo significa mudar a forma como enxergamos o nosso passado, a fim de podermos cortar os vínculos mentais que nos prendem a esse passado.

 

Algo muito importante a considerar é isso: na realidade, o passado só existe em nossa mente (em nossa memória, em nossas lembranças, em nossos registros mentais). Na vida real, só existe o momento presente: o passado já se foi e o futuro ainda não chegou. Portanto, mudar o nosso modo de ver o passado significa mudar a forma como nossas representações mentais do passado são conservadas e agem em nós.

 

E isso requer estabelecer aquele distanciamento temporal, espacial e material do qual já falei acima. Curiosamente, para podermos nos distanciar de forma saudável do nosso passado, primeiro é preciso enfrentá-lo e olhá-lo de frente. Fugir e esquivar-se dele só aperta ainda mais os nós que nos amarram nele.

 

“Nem me fale disso”, costumamos dizer quando queremos fugir de alguma lembrança. Mas, as lembranças negativas são como crianças carentes de atenção: quanto mais lhes negamos atenção, mas elas investem em situações para se manifestar e ganhar espaço. Portanto, precisamos dar atenção ao nosso passado, de forma coerente e consciente, como um processo de cura interior. Só depois disso, vamos perceber como, naturalmente, o passado se aquieta dentro de nós.

 

O passo decisivo da nossa reprogramação mental para perdoar a si mesmo e aos outros e para conviver de forma “pacífica” com nosso passado, por mais doloroso e traumático que tenha sido, é este: passar de uma atitude de rejeição e de negação do passado para uma atitude de aceitação e de integração.

 

- Aceitar e integrar em nossa vida o passado doloroso não significa achar que tudo foi bom nem minimizar a gravidade do que fizemos ou do que fizeram a nós.

 

- Aceitar e integrar não significa fingir que nada aconteceu e que nenhuma ferida foi aberta.

 

- Aceitar e integrar não significa fechar os olhos para as cicatrizes que ainda existem em nós.

 

- Aceitar significa assumir que, apesar da dor e do sofrimento, aquilo faz parte da nossa história de vida, que não dá para voltar atrás, que é impossível arrancar essa página da nossa biografia, que somos incapazes de “deletar” essas memórias.

 

- Aceitar significa entender que há coisas que vão além da nossa vontade e que não levam em conta nossos sonhos de felicidade e nem nossos projetos de vida.

 

- Aceitar significa entender que a vida tem contradições, frustrações e limites e que, mesmo assim, vale a pena ser vivida.

 

- Aceitar significa tranquilizar o nosso juiz interior, que costuma achar que sempre fomos (e somos) vítimas e injustiçados.

 

- Aceitar significa aceitar nossas próprias limitações, nossos defeitos e imperfeições, sem esquecer o valor que temos, apesar de tudo isso.

 

- Aceitar também significa entender as limitações dos outros, sem jogar na lata do lixo o valor que as outras pessoas também têm, mesmo que tenham agido da forma mais desprezível e inaceitável.

 

Sim, eu sei: “Escrever tudo isso é fácil”, você deve estar pensando... e eu também sei que escrever é fácil, o problema é viver tudo isso! Sim, nada disso é fácil de ser encarado e vivido, pois vai na contramão das nossas programações mentais negativas, tão arraigadas em nós! Contudo, é possível e é este o primeiro passo para perdoar aos outros e a si mesmo e para tranquilizar, em nossa mente, nossas memórias de um passado doloroso.

 

Para finalizar: perdoar a si mesmo e aos outros requer uma boa dose de humildade. Todos nós temos muitos valores, mas também temos limitações! Somos tesouros guardados em vasos de barro (humildade remete a húmus, terra, barro, pó). Por mais bem intencionados que possamos ser, nem sempre acertamos, nem sempre agimos da forma mais adequada e esperada por nós mesmos e pelos outros.

 

Quem se dedica a estudar a mente humana sabe que não agimos apenas em resposta a processos mentais conscientes (lógicos, ponderados, sensatos, equilibrados, coerentes etc...), mas, sobretudo, a partir de poderosas forças inconscientes (ilógicas, insensatas, impulsivas, incoerentes etc...) que agem silenciosamente dentro de nós (incluindo nossas programações mentais).

 

Mas, a boa notícia é que podemos, passo a passo, pouco a pouco, desprogramar e reprogramar a nossa mente, para aumentar a nossa qualidade de vida, a nossa saúde mental, emocional, física e espiritual, assim como para dar mais brilho e luz ao horizonte da nossa vida.

 

Eu faço votos de que a leitura e a reflexão dos pontos apresentados neste artigo ajudem você a fazer o longo e gratificante caminho de reprogramar a sua mente para perdoar aos outros e perdoar a si mesmo.

 

E eu espero que você possa, cada vez mais, olhar para seu passado de forma tranquila e serena, tendo consciência de que, de algum modo, seu passado o tornou mais forte.

 

Prof. Dr. Paulo Eduardo de Oliveira